terça-feira, 9 de junho de 2015

‘Tio Sam’ e a geopolítica do futebol

Surpreendendo todo o mundo, Estados Unidos lideraram as investigações contra a corrupção na Fifa, mas seus interesses podem ir muito além...Vinícius Lousada

Os escândalos de corrupção no futebol que transformaram cartolas poderosos em investigados e réus movimentaram o mundo, culminando até na renúncia de Joseph Blatter à presidência da Fifa. As irregularidades são evidentes e alvo de antigas desconfianças por quem conhece minimamente os bastidores do esporte. Para muitos, no entanto, a maior surpresa se deu pelo fato de a iniciativa da operação ter partido dos Estados Unidos, por meio do FBI, já que o país não possui aparente tradição nem fortes relações com a modalidade. Diante disso, alguns especialistas garantem: a resposta para as motivações norte-americanas está em questões geopolíticas.


Fotos Públicas
Reeleito, Joseph Blatter renunciou ao cargo de Presidente da Fifa e é investigado


O presidente russo, Vladmir Putin, foi o primeiro a se manifestar a respeito, ao alegar que a ação do “Tio Sam” tinha como objetivo impedir a realização da Copa do Mundo de 2018 no antigo território soviético. Mesmo passadas mais de duas décadas do fim da Guerra Fria, Estados Unidos e Rússia voltaram a protagonizar conflitos diplomáticos nos últimos anos, especialmente sobre a condução das negociações frente à instabilidade política em países do leste europeu.

O Qatar, por sua vez, sediará o mais importante torneio da Fifa em 2022, após ter vencido disputa justamente contra os norte-americanos, que também queriam receber o evento. O Emirado, localizado no Oriente Médio, é um dos estados mais ricos da região.

NOVA ORDEM

Para o geógrafo especialista em geopolítica Kláudio Cóffani, a intenção dos Estados Unidos é de estabelecer uma nova ordem mundial para o futebol, pois a que está em vigência sempre foi controlada pelos mesmos cartolas, independentemente dos norte-americanos.

O sistema atual teria, inclusive, submetido os EUA a derrotas (na escolha da sede para a Copa do Mundo de 2022), a fim de privilegiar os esquemas de corrupção. Afinal, há indícios de que o Qatar chegou a pagar propina para receber o campeonato da Fifa.

“Diante de tudo isso, surge uma excelente oportunidade para que os americanos, mais uma vez, ajam como os ‘xerifes do mundo’, valendo-se de toda a sua estrutura e inteligência para investigar a corrupção no futebol em escala global”, pontua Cóffani.

Segundo o geógrafo, a queda de Blatter do comando da maior organização do esporte é simbólica. “Os Estados Unidos conseguiram o apoio da Europa. Se ele continuasse no cargo, as seleções europeias, certamente, se retirariam da Copa do Mundo e montariam um torneio à parte. Não restaria nada para a Fifa”.

Na semana passada, um especialista da Universidade Harvard se posicionou de forma semelhante, reiterando o caráter imperialista da ação do governo norte-americano. “A ONU está presente em vários países, mas os EUA têm poder sobre ela. Isso não acontece com a Fifa, o que causa uma ruptura da hegemonia americana”, afirmou o professor John Shulman, que já foi jogador.

Professora vê excessos em ‘tese imperialista’

Para Beatriz Sabia, professora de Relações Internacionais da Universidade do Sagrado Coração (USC), há um exagero e até certo extremismo em avaliações como a do professor de Harvard. “Não enxergo uma ação imperialista”.

Em relação à Rússia (sede da Copa do Mundo de 2014), ela é taxativa ao dizer que não há, hoje, resquícios da Guerra Fria, iniciada após a Segunda Guerra Mundial e marcada pelas disputas ideológica e de poder entre os Estados Unidos e a então União Soviética.

“Não há sequer dois sistemas em jogo (capitalismo e socialismo). E, da parte do Barack Obama, não vejo qualquer movimento de uma reedição desse conflito. Ele é muito cauteloso. Existe, sim, um sentimento de competição por parte do (Vladmir) Putin, que é muito mais incisivo e já ameaçou, inclusive, vetar posicionamentos norte-americanos no Conselho de Segurança da ONU”, avalia Beatriz.

Mesmo quanto ao Qatar, segundo a professora, os Estados Unidos não demonstram acirramentos. “É claro que existe o fato de o país do Oriente Médio ter levado a Copa de 2022 (na disputa contra o Tio Sam), mas, no contexto geopolítico, eles estão mais próximos (ideologicamente) de Dubai. São ocidentalizados e não alimentam aquele sentimento de antiamericanismo”, diz ela sobre o antigo protetorado britânico.

A professora lembra ainda que, antes dos norte-americanos, o governo suíço já havia questionado os critérios para as escolhas das sedes do principal torneio da Fifa. “Ninguém se lembra muito disso, mas a coisa começou lá”.

MONEY

Apesar dos argumentos, Beatriz esclarece: há, sim, questões geopolíticas envolvidas na iniciativa dos EUA. “É uma maneira de se colocarem no sistema internacional do futebol. O esporte é importante e eventos como a Copa do Mundo envolvem muito dinheiro e diversos interesses”.

A movimentação financeira gerada pelo torneio, aliás, é um ponto crucial, segundo a especialista em relações internacionais. 

“O capital que gira é muito grande e os norte-americanos ainda estão se recuperando de uma forte crise econômica. Seria importante para a reestruturação do país, como teria sido relevante para nós do Brasil, mas, infelizmente, não sentimos esse retorno por conta de uma série de problemas estruturais”, ressalta.

Grande negócio

O futebol movimenta bilhões em todo o mundo. Grandes astros faturam milhões. Somente o português Cristiano Ronaldo ganha, aproximadamente, US$ 44 milhões por ano. O argentino Lionel Messi, US$ 41,3 milhões. Os valores dos contratos de patrocinadores são exorbitantes. E tudo isso, é claro, desperta forte interesse dos Estados Unidos, segundo Kláudio Cóffani.

Além disso, o futebol tem se popularizado cada vez mais no país. “O soccer sempre foi tratado e disseminado como um esporte para mulheres nos EUA. Tanto é que a seleção feminina de lá é campeã do mundo. A ‘tradição’ começou na década de 1970 e as garotas da época, hoje, são mães e passaram o gosto pela modalidade a seus filhos e filhas”, explica.

Tanto é que o futebol, de acordo com o geógrafo, já figura como o segundo esporte mais popular entre os jovens norte-americanos. “Mesmo existindo há apenas 20 anos, a principal liga da modalidade já conta com frequência média de público superior à dos campeonatos da NBA (basquete) e NHL (hockey)”. 

‘Cleptocracia’

Profundo conhecedor dos bastidores do futebol, o jornalista Luiz Carlos Azenha é categórico: nenhuma motivação geopolítica deve ser utilizada como argumento na tentativa de amenizar o escândalo que vem sendo evidenciado pelas investigações do FBI. “Os cartolas são bandidos e aquilo era uma ‘cleptocracia’. Houve um acúmulo de informações muito grande. Mais cedo ou mais tarde, tudo isso acabaria acontecendo”. Azenha aponta ainda um esgotamento nos esquemas de corrupção. “Os patrocinadores foram atingidos. Mesmo os grandes não querem mais ter relação com essa máfia e pagar propinas”, finaliza.
CBF milionária, clubes falidos

Luiz Carlos Azenha afirma que a falta de comprometimento dos cartolas com o futebol tem reflexo na falência da maioria absoluta dos clubes do Brasil. “Com exceção de uns cinco ou seis, estão todos quebrados.

Enquanto isso, temos uma CBF milionária. Quando o Noroeste, tão tradicional, deveria estar na segunda divisão (do Campeonato Paulista) e sem qualquer condição, em termos de receita, de sair de onde está?”, questiona. O jornalista conta que, nos Estados Unidos, o dinheiro é dividido igualmente entre os clubes, até mesmo nas modalidades mais rentáveis por lá, como o basquete, o beisebol. 

“Todos têm recursos para montar boas equipes e os campeonatos são equilibrados. A cada vez, vence um. Aqui, não. Temos a lógica da audiência, que beneficia o Corinthians e o Flamengo, em um monopólio da TV Globo sustentado pela CBF”, critica.

Livro de bauruense antecipou escândalo da Fifa

A corrupção no futebol, envolvendo nomes como João Havelange e Ricardo Teixeira, fora evidenciada há cerca de um ano pelo livro “O lado sujo do futebol” (Editora Planeta). O jornalista bauruense Luiz Carlos Azenha e outros três autores foram responsáveis pela publicação dos resultados de um trabalho de fôlego sobre os bastidores do esporte.

“Nada do que veio à tona por meio das provas divulgadas pelo FBI nos surpreendeu. Tudo aquilo apenas confirmou o que a gente havia apurado. Existem essas empresas para fazer intermediação. No campo internacional, a ISL. No Brasil, a Traffic, do J. Hawilla. Sem necessidade, elas são colocadas de forma arbitrária pelos cartolas com o objetivo de cobrar comissões, que são transformadas em propina”, explica.

Segundo Azenha, o método utilizado pelos envolvidos é reproduzido em várias instâncias e não ocorre de forma eventual. “A articulação é sempre da mesma turma e as taxas de propina são altíssimas, por volta de 25%. É muito dinheiro. Em todos os contratos aos quais tivemos acesso, havia algum tipo de picaretagem, seja na base das vantagens ou envolvendo dinheiro mesmo”.

No livro, são reproduzidos documentos obtidos em cartórios de São Paulo e do Rio de Janeiro que apontam, por exemplo, a coincidência de aumentos de patrimônio de Ricardo Teixeira com os indicativos de recebimento de propina pelo cartola. “Tivemos acesso à lista dos pagamentos a ele e ao Havelange. Conseguimos com exclusividade na Suíça, antes de qualquer outro veículo de comunicação”.

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